quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Twixt (2011)


Afastado da direcção durante dez anos, gerou-se muita expectativa quando Youth Without Youth, de Francis Ford Coppola, estreou em 2007. Mas cedo se percebeu que este não era o mesmo Coppola de outros tempos, tamanha era a distância que o separava da rigidez (e do comercialismo) dos seus trabalhos anteriores. E logo se partiu a criticá-lo pelo rompimento com a fórmula habitual e o legado construído - TWIXT não escapou, alguns anos volvidos, ao mesmo fogo cruzado.


Primeiro, porque apresentava, à partida, fortes semelhanças com aquele que muitos consideram o último grande filme do norte-americano, Dracula, sem nunca ser, no entanto, a sua continuação lógica. Depois, porque segue na passada dos títulos pós-regresso de Coppola, assumindo-se quase como um exercício à mão-livre. O caldo estava já entornado.

Mas, e analisando por alto as suas três obras mais recentes - Youth Without Youth, Tetro e este Twixt -, facilmente se identifica uma das características mais positivas da incursão de Coppola pelo digital: ao permitir-lhe reduzir os custos, deixou-o com uma maior liberdade para prosseguir a sua visão. Chamando unicamente a si a responsabilidade na produção, direcção e escrita do argumento, Coppola cortou com as amarras que o prendiam à máquina dos estúdios e ao passado.

Twixt revela-se, assim, e talvez até mais do que os dois que o antecederam no período digital do realizador (apanágio, quem sabe, de ser o primeiro argumento original), um filme incrivelmente solto, livre de formalismos. Por muito que se demore a entranhar - e demora o seu tempo -, há que lhe louvar esse seu traço; até porque, no seu cerne, esse desprendimento permite-lhe apresentar-se como um objecto muitíssimo inteligente no dispositivo que constrói. Vejamos: nada do que nos é mostrado até à última cena (que confirma, de certo modo, o que já é dado a entender pela narração da primeira) é real; trata-se tudo de um pitch de um escritor de segunda ao seu editor. É esse o golpe de asa de Twixt, que parece ter passado despercebido a muito boa gente, a noção de que tudo não é mais do que uma simples venda, até mesmo num filme que não foi pensado para ser vendido.

Daí se percebe o porquê das sequências de sonho do escritor alcoólico de Val Kilmer serem tão apatetadas. O próprio mecanismo dispositivo em que se inserem acaba por justificar o overacting/underdirecting que as vinca (e é aqui que convém relembrar que Coppola raramente dá ponto sem nó): são, tão-somente, a demonstração da literatura de má qualidade maquinada por um escritor na esperança de reanimar (e todo o filme, por sua vez, gravita em torno da figura da reanimação) a sua carreira. A forma como são fotografadas por Mihai Malaimare, mostrando uma rara compreensão do que é fotografar em digital, parece, outrossim, apontar nesse sentido: ao sugar a cor ao narrador (de novo, a personagem de Val Kilmer), iluminando, em detrimento, os fantasmas que lhe vão aparecendo, carrega o carácter irreal da dimensão acordada; no fundo, a fantasia declarada, com os espectros de Poe e dos vampiros, assume-se como sendo mais real para o escritor do que o que, à partida, existe. Partindo de um mecanismo oposto ao utilizado por Douglas Trumbull em Brainstorm, que "projectava" as recordações nas personagens em 70mm, para que fossem visualmente mais nítidas, obtém-se um resultado em tudo semelhante: a confusão entre o verdadeiro e o imaginado, entre o físico e o mental.

São essas as boas ideias que conferem a Twixt - mesmo que não se trate de um filme particularmente brilhante, nem nada que se pareça - os seus principais pontos de interesse. No fim, resta a dúvida se há redenção que valha às personagens presas no universo onírico a que Coppola se entrega. Uma coisa, contudo, é certa nesta fase da sua filmografia: Coppola, ao saber escapar-se e reinventar-se, já não se limita a fazer o que pode; agora, faz o que quer. E esse é motivo de sobra para que mereça o meu aplauso.


Título Original: Twixt (EUA, 2011)
Realizador: Francis Ford Coppola
Argumento: Francis Ford Coppola
Intérpretes: Val Kilmer, Bruce Dern, Elle Fanning, Joanne Whalley, David Paymer
Música: Dan Deacon, Osvaldo Golijov
Fotografia: Mihai Malaimare
Género: Terror, Thriller
Duração: 88 minutos


Sem comentários :

Enviar um comentário