sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Contagion (2011)

Passei a semana constipado. Era para escrever engripado, mas optei pelo mal menor não fosse alguém que me conheça calhar de ler esta resenha (e logo esta) e fugir de mim a sete pés. A referência cinematográfica mais imediata quanto a doenças e contágios - e está-se aqui a entrar pelos sinuosos caminhos dos filmes-catástrofe, entretenimento de eleição em tardes de domingo passadas no sofá - será CONTAGION, de Steven Soderbergh. Mosaico construído à volta de uma pandemia, toca várias caras conhecidas, exigindo mais da memória do espectador do que ao início seria de esperar. Soderbergh entrecorta as várias histórias, recusando qualquer padrão discernível, tornando por vezes difícil a associação entre personagens e respectivas unidades narrativas. Há momentos em que o argumento se dispersa em considerações desnecessárias, pedaços de informação nem sempre precisos, mas será igualmente justo referir que consegue deixar claros, na sua maioria, os actos de bondade e falhas de carácter das suas personagens.

Recuando um pouco na fita, Contagion abre com uma montagem dinâmica de alguns dos infectados - os establishing shots, concisos, são de gabar - que se tornaria apanágio do filme. Aliás, será essa (a utilização de imagens e músicas como principal ferramenta narrativa) uma das marcas autorais mais importantes no cinema de Soderbergh, a par da deambulação por diferentes géneros. Fotografia (do próprio) e banda-sonora competentes marcam mais uma digna tentativa do realizador norte-americano de se reinterpretar. E eu continuo constipado.


Título Original: Contagion (Emirados Árabes Unidos, EUA, 2011)
Realizador: Steven Soderbergh
Argumento: Scott Z. Burns
Intérpretes: Gwyneth Paltrow, Matt Damon, Laurence Fishburne, John Hawkes, Jude Law, Stef Tovar, Marion Cotillard, Kate Winslet, Anna Jacoby-Heron, Jennifer Ehle, Elliott Gould, Bryan Cranston
Música: Cliff Martinez
Fotografia: Steven Soderbergh (como Peter Andrews)
Género: Drama, Thriller
Duração: 106 minutos


quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Killing Them Softly (2012)

Não haverá nenhuma novidade no que é apresentado em KILLING THEM SOFTLY. Não é a primeira vez que se compara a organização da Máfia à de uma empresa, dividida em consecutivas chefias e subordinados, ou que se mostra aquela área de negócios como dependente dos conhecimentos e relações pessoais de quem por lá se move. Andrew Dominik consegue, no entanto, transformar uma história banal e possivelmente sensaborona num thriller criminal cheio de estilo e visualmente marcante.

Nunca durante o filme se fica com a sensação de que poderá haver um final feliz. A inexistência da metafórica luz ao fundo do túnel fica clara logo nos primeiros planos, quando a personagem de Scoot McNairy - indivíduo de aparência duvidosa, com ar de quem mais depressa é vítima de um crime do que ao contrário - sai de um túnel, este literal, e encontra uma Nova Orleães arrasada pelo Katrina. A certeza chega, porém, quando os três bandidos de reputação e meios manhosos planeiam e executam de forma caricata o assalto a um jogo de cartas organizado pela Máfia, traçando o seu inevitável destino. Daí até que apareça Jackie - Brad Pitt, protagonista sólido, numa das melhores entradas em cena da sua carreira, ao som de uma canção de Johnny Cash que enuncia «there's a man going around taking names, and he decides who to free and who to blame» - é apenas um salto. Justiceiro frio e implacável, a sua missão é entregar o castigo àqueles que erraram. A culpa, sempre relativa, pouco importa para o cinismo das suas decisões.


Andrew Dominik falha o nível de desconstrução do género alcançado no seu anterior The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford, mas cria, ainda assim, uma fita consistente e segura de si mesma, que, apesar de nem sempre saber o que quer dizer, sabe como dizê-lo, passe o pleonasmo. Os diálogos, entrecortados com discursos políticos sobre a economia norte-americana, voam perfurantes como balas, ora acertando nos alvos, ora falhando-os, carregados de críticas sociais e de duras verdades sobre uma sociedade que parece não as querer ouvir. Mas o grande trunfo de Killing Them Softly é a maneira como Dominik filma a violência. Auxiliado pela excelente fotografia de Greig Fraser, o neozelandês capta toda a beleza no movimento e agressão, a gentileza da morte traduzida num bailado improvável e raramente conseguido, dançado preferencialmente à chuva e sempre de noite. Esteticamente fenomenal, a imagem, mais poderosa, sobrepõe-se ao discurso de Jackie e dos seus associados. Sobra, como se previa ao início, um homem que faz o que tem de fazer, por si, reduzindo o "sonho americano" quase ao niilismo.


Título Original: Killing Them Softly (EUA, 2012)
Realizador: Andrew Dominik
Argumento: Andrew Dominik (baseado no livro de George V. Higgins)
Intérpretes: Brad Pitt, Scoot McNairy, Ben Mendelsohn, James Gandolfini, Richard Jenkins, Ray Liotta, Vincent Curatola, Sam Shepard
Fotografia: Greig Fraser
Género: Crime, Drama, Thriller
Duração: 97 minutos




quarta-feira, 28 de novembro de 2012

ParaNorman (2012)

«It's all fun and games until someone raises the dead.»

A animação tem sido um campo cada vez menos destinado exclusivamente às crianças. PARANORMAN, produzido pela Laika - estúdio que há uns anos maravilhou meio Mundo com Coraline, de Henry Selick -, comprova essa tendência, combinando elementos de terror clássico com uma história que requer alguma maturidade para ser entendida. Não que o filme se demarque completamente da audiência infantil, mas nota-se a aproximação progressiva (quase como o que se tentou há duas ou três décadas) da indústria do género a um público mais adulto.


Parte homenagem cinematográfica ao Terror - as referências vão desde os anos 50 aos 80 -, parte moral a ser apreendida, a sequência que abre ParaNorman, das melhores do ano dentro do género, deixa logo claros dois dos seus principais objectivos: introduzir os mais jovens a um tipo de filmes (Terror) que, porventura, ainda não conhecerão, e reunir os mais crescidos com a sua criança interior. De resto, há qualquer coisa de burtoniano na narrativa - o menino inadaptado, marginalizado pela sociedade por um dom que não escolheu possuir e que o torna diferente - ao mesmo tempo que se brinca com algumas convenções do género. Os estereótipos do atleta burro, da loira desmiolada, do arauto e até mesmo da marrona - todos enunciados em The Cabin In the Woods, da dupla Goddard/Whedon - são subvertidos a favor da história e da meta que se pretende alcançar. A diferença é bonita e merece ser abraçada.

Chris Butler e Sam Fell dirigem um fantástico conjunto de vozes, cedidas por um ecléctico grupo de actores, enumerado na nostálgica sequência final, que acrescentam uma outra dimensão à expressividade das figuras, já de si incríveis. A película é catapultada para outro plano - um capaz de colocar a Laika a competir com gigantes como a Pixar ou a DreamWorks - pelo cuidado com que lida com todos os aspectos da produção cinematográfica envolvidos, da direcção artística à fotografia, passando pela excelente banda sonora de Jon Brion. Se calhar até já o escrevi algures nestas linhas, mas vale a pena repeti-lo: ParaNorman é, sem dúvida, um dos melhores do ano.


Título Original: ParaNorman (EUA, 2012)
Realizador: Chris Butler, Sam Fell
Argumento: Chris Butler
Intérpretes: Kodi Smit-McPhee, Tucker Albrizzi, Anna Kendrick, Casey Affleck, Christopher Mintz-Plasse, Leslie Mann, Jeff Garlin, Elaine Stritch, Bernard Hill, Alex Borstein, John Goodman
Música: Jon Brion
Fotografia: Tristan Oliver
Género: Animação, Aventura, Comédia, Família, Fantasia, Terror
Duração: 92 minutos


Trailer de "The Mortal Instruments: City of Bones"

The Mortal Instruments: City of Bones, com estreia prevista em Portugal para Agosto de 2013, já tem trailer. A adaptação cinematográfica do romance de Cassandra Clare, popular no segmento young adult, contará no seu elenco com nomes como Jamie Campbell Bower, Lily Collins, Lena Headey e Jared Harris.


terça-feira, 27 de novembro de 2012

Citações: "End of Watch"

«I am the police, and I'm here to arrest you. You've broken the law. I did not write the law. I may disagree with the law but I will enforce it. No matter how you plead, condole, beg or attempt to stir my sympathy. Nothing you do will stop me from placing you in a steel cage with gray bars. If you run away I will chase you. If you fight me I will fight back. If you shoot at me I will shoot back. By law I am unable to walk away. I am a consequence. I am the unpaid bill. I am fate with a badge and a gun.»
Brian Taylor

Jake Gyllenhaal em End of Watch.

Trailer de "Now You See Me"

Now You See Me, com estreia prevista para o Verão de 2013, já conta com trailer. O filme conta com realização de Louis Leterrier, argumento de Ed Solomon, Boaz Yakin e Edward Ricourt e interpretações de Jesse Eisenberg, Woody Harrelson, Mark Ruffalo, Michael Caine, entre outros.


Trailer de "The Man Who Shook the Hand of Vicente Fernandez"

The Man Who Shook the Hand of Vicente Fernandez pode ser a última desculpa para ver Ernest Borgnine - falecido este ano - no grande ecrã. O veterano interpreta um idoso amargurado por não ter alcançado a fama como actor de westerns. O filme ainda não tem estreia prevista em Portugal.


segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Antevisão CineFiesta 2012 #2

Depois de referenciarmos algumas das obras de ficção presentes na edição deste ano do CineFiesta, o o nosso olhar recai agora sobre os documentários e filmes de Víctor Erice (homenageado pelo festival) seleccionados para o certame.

Entre eles contam-se:

  • EL CUADERNO DE BARRO, de Isaki Lacuesta


  • EL ESPÍRITU DE LA COLMENA, de Víctor Erice


  • EL SUR, de Víctor Erice

Também de Víctor Erice será exibido EL SOL DEL MEMBRILLO. Na secção de documentários serão exibidos ainda GUEST e AL FINAL DEL TUNEL.

Podem consultar o programa e outras informações no site oficial do CineFiesta.

domingo, 25 de novembro de 2012

Carnage (2011)

«Penelope, I believe in the god of carnage. The god whose rule's been unchallenged since time immemorial.»

Roman Polanski parece particularmente interessado, nesta fase mais recente da sua carreira (e evito escrever última, que conto com mais uns quantos - muitos? - filmes antes do seu fim), nos conceitos de "culpa" e "responsabilidade", quem sabe inspirado pela sua célebre situação pessoal. Em CARNAGE, adaptação da peça de teatro homónima escrita por Yasmina Reza (que também assina o argumento do filme), colocam-se dois casais nova-iorquinos debaixo do mesmo tecto, num truque quasi-buñuelino, impossibilitados de abandonar o apartamento onde discutem um conflito entre os respectivos filhos. À medida que o tempo passa - e o verniz da sociedade vai estalando -, a sua verdadeira natureza revela-se. O choque entre classes, a (in)justiça, a educação e outros princípios são postos em causa durante pouco mais de uma hora de diálogo contínuo.

A direcção de Polanski incide sobre quatro intérpretes competentes - Jodie Foster e John C. Reilly dum lado, Kate Winslet e Christoph Waltz do outro -, contida e metódica, ignorando cenários e distracções (com excepção do telemóvel que não pára de tocar) em prol das personagens. Raras vezes se transpôs para a tela com tanto rigor um trabalho pensado primeiramente para o palco - já falava Manoel de Oliveira no Cinema como ferramenta de fixação das artes cénicas e do Teatro - sem subverter o seu significado ou intenção.

Carnage abre e fecha com planos abertos (muito abertos) de um parque público, aparentemente externo ao apartamento onde se concentra a acção. No primeiro, um rapaz agride outro com um pau; no último, os dois miúdos são já amigos e a vida continua como se nada se tivesse passado. O que acontece fora daquela casa pouco importa para o que se passa lá dentro. É que há quem ainda acredite num Deus da carnificina, aquele cujas regras são aplicadas desde o princípio dos tempos.


Título Original: Carnage (Alemanha/Espanha/França/Polónia, 2011)
Realizador: Roman Polanski
Argumento: Yasmina Reza, Roman Polanski, Michael Katims (baseado na peça de Yasmina Reza)
Intérpretes: Jodie Foster, Kate Winslet, Christoph Waltz, John C. Reilly
Música: Alexandre Desplat
Fotografia: Pawel Edelman
Género: Comédia, Drama
Duração: 80 minutos


Sunday Stills #13: "Harry Potter and the Chamber of Secrets"



Kenneth Branagh em HARRY POTTER AND THE CHAMBER OF SECRETS, de Chris Columbus. O pormenor do retrato de Gilderoy Lockhart estar a pintar um outro quadro de si mesmo é absolutamente delicioso.

sábado, 24 de novembro de 2012

End of Watch (2012)

Andava eu, numa das minhas últimas idas ao cinema, a admirar os cartazes e painéis publicitários estrategicamente colocados nos corredores dos multiplexes quando dou de caras com um desdobrável de um título que me transportou imediatamente para outro. E, já agora, para outros tempos. É que END OF WATCH remete para Training Day, de Antoine Fuqua, com ou sem ajuda do marketing (mas preferencialmente com, não fosse alguém escapar à associação). Também não será apenas por serem ambos produto da mesma pena - a de David Ayer, que assume aqui a cadeira de realizador - que se estabelece a ligação. As duas fitas abordam, embora através de metodologias e esquemas diferentes, a rotina de uma força policial. Virá talvez daí a proximidade identificável entre a parelha.

Recuando alguns anos, lembro-me que vi o Training Day pela primeira vez durante uma viagem entre Shreveport, no Louisiana, e uma qualquer cidade texana num portátil que estaria, pelos padrões de agora, obsoleto. Não terá sido há tanto tempo quanto isso, mas era novo - foi antes dos meus teens, às vezes é fácil esquecer-me que continuo a ser um miúdo que escreve ocasionalmente sobre aquilo que quer e gosta - e o filme ficou-me. Lembro-me, com particular detalhe, da cena em que um gangster latino pergunta à personagem de Ethan Hawke se alguma vez lhe empurraram a merda para cima, literalmente. Tenho, contudo, a sensação - e atenção, que eu posso estar errado - que a qualidade global do filme queda-se muito abaixo da memória que tenho dele. Provavelmente será por isso que ando desde então a evitar revê-lo.

Voltando ao presente - e a End of Watch -, temos dois jovem agentes da polícia de L.A. que gravam os seus turnos. Trabalham numa das esquadras mais perigosas da cidade e encontram diariamente uma sucessão de crimes e criminosos que, mesmo não espantando, nos fazem repensar o serviço que prestam. Não que as personagens de Jake Gyllenhaal e Michael Peña sejam agentes-modelo - encaixam-se mais no arquétipo do cowboy que pouco se importa com as regras e procedimentos -, mas agem movidos por um sentido de justiça que não se revia, por exemplo, na figura do detective Alonzo Harris (e que, de resto, valeu o Oscar a Denzel Washington). David Ayer cedo manifesta o seu desejo em separar os heróis dos vilões, identificando-os claramente e criando uma barreira tangível entre o Bem e o Mal. Há toda uma linha de valores que são defendidos - e que já vimos defender dezenas de vezes no Cinema -, como a justiça, a solidariedade, a honra e a lealdade. A Força como família - tratam-se amiúde por "irmão" -, criadora de bons-costumes; a noção do black & blue e o mosqueteirismo do "um por todos e todos por um", comuns a tantas fitas do género.

Ayer teve, no entanto, a inteligência de perceber e saber contornar as limitações do found footage, evitando ficar preso ao formato e recorrendo a outras câmaras e planos sempre que a situação o justificasse. Fica a ideia que End of Watch é melhor do que o filme com que o tentam comparar - e com o qual parece querer ser comparado -, surgindo como uma agradável surpresa e válida aposta.


Título Original: End of Watch (EUA, 2012)
Realizador: David Ayer
Argumento: David Ayer
Intérpretes: Jake Gyllenhaal, Michael Peña, Natalie Martinez, Anna Kendrick, David Harbour, Frank Grillo, America Ferrera, Maurice Compte, Diamonique
Música: David Sardy
Fotografia: Roman Vasyanov
Género: Crime, Drama, Thriller
Duração: 109 minutos


Florbela (2012)

Bastam poucos minutos de filme para perceber que FLORBELA é mais sobre uma mulher que vive a romper com as convenções do seu tempo - e que, no contexto da fita, podia muito bem ser uma anónima - do que sobre a poetisa que dela partilha o nome. A escolha de Vicente Alves do Ó de adaptar para o cinema um período da sua vida em que a inspiração não lhe chegava não terá sido inocente, tentando separar-se a pessoa da obra, apenas para que no final se conclua que a relação entre as duas é mais próxima do que inicialmente se poderia julgar (ou, neste caso, do que Alves do Ó julgaria). Florbela acaba, desse modo, por ser um filme paradoxal, feito de noções que se contrariam.

O argumento - sobretudo nos diálogos - parece acompanhar inconscientemente essa tendência dicotómica geral. Empestado de um lirismo pouco natural, presente em quase tudo o que as personagens dizem, força a experiência ao espectador e dificulta-lhe a imersão na história. Às tantas, foram já utilizados todos os chavões do sentimentalismo e falsa sabedoria, tão poéticos quanto vazios, coisas absurdas como «a felicidade não está ao virar da esquina», «pior do que não ter o que se quer é não fazer nada para que se o tenha» ou «o amor não morre com a outra pessoa». Assiste-se a uma racionalização excessiva do que é dito - e que foi escrito - que se transmite às metáforas visuais que são empregues.

Dalila Carmo, Albano Jerónimo e Ivo Canelas entregam, contudo, interpretações muito consistentes, sempre dentro dos limites que o guião lhes permite. Para a primeira, protagonista epónima, tal significa liberdade quase total para expandir a sua personagem; para os homens a restrição é mais apertada, verificando-se um défice no desenvolvimento de Mário e Apeles. A formação desse triângulo (amoroso) é acompanhada por um enorme cuidado a nível técnico - que, aliás, já havia sido evidenciado na anterior obra do realizador - através da bela fotografia de Luís Branquinho, da direcção artística de Silvia Grabowski e da montagem de João Braz.

Oitenta anos depois de Florbela, a poetisa, Os Lacraus cantariam «são os mortos que riem, são os vivos que choram», nota semelhante àquela que termina Florbela, o filme. Alves do Ó segue a indecisão da sua protagonista, dividida entre o casamento, o remorso e uma outra noção (superior) de liberdade, com uma câmara trémula e deambulante que, mesmo hesitando em captar a acção ao longe, consegue sempre manter um certo distanciamento em relação aos sujeitos que filma. Engolfado por uma banda sonora omnipresente que, de certa maneira, substitui a poesia que se esperava ouvir, o biopic que não o quer ser é fechado com outro - mais um - paradoxo: é um razoável filme que serve de óptima montra para o seu autor. Não será, portanto, de estranhar que a moldura pareça melhor do que o interior. Na memória, para além de imensos fotogramas de uma beleza incomensurável, ficam aquela sequência que serve de créditos iniciais, e que transmuta brilhantemente prazer em abuso, e as três palavras que tardam em abandonar a audiência. Florbela, obra e tristeza. O resto, que o leve o mar.


Título Original: Florbela (Portugal, 2012)
Realizador: Vicente Alves do Ó
Argumento: Vicente Alves do Ó
Intérpretes: Dalila Carmo, Ivo Canelas, Albano Jerónimo, António Fonseca, Carmen Santos, Rita Loureiro, Marques D'Arede, Anabela Teixeira
Música: Guga Bernardo
Fotografia: Luís Branquinho
Género: Biografia, Drama
Duração: 119 minutos


sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Curtas: "Geometria"

GEOMETRIA (1987), de Guillermo del Toro.





Um rapaz, cansado de chumbar a geometria, invoca um demónio para que este o ajude com a matéria. Segunda curta-metragem do realizador mexicano, aqui publicada num director's cut pensado para a edição de Cronos (1993) pela The Criterion Collection.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Porque hoje é Thanksgiving

A quarta quinta-feira de Novembro é sinónimo de Dia de Acção de Graças nos EUA. Para celebrar a data - e porque sim - fica o trailer falso que Eli Roth realizou para GRINDHOUSE, o double-feature de Robert Rodriguez e Quentin Tarantino, um slasher sazonal que dá pelo nome de... THANKSGIVING.





Bom Dia de Acção de Graças, e que façam bom-proveito do peru!

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Antevisão CineFiesta 2012 #1

Entre 26 de Novembro e 2 de Dezembro vai realizar-se a secção portuense - cidade que, de resto, empresta o gentílico a este espaço - do CineFiesta 2012, mostra do Cinema espanhol. A selecção do festival combina longas-metragens de ficção, documentários, animações e uma merecida homenagem ao realizador Víctor Erice. As sessões serão divididas entre o Dolce Vita, a Biblioteca Almeida Garrett e o Teatro do Campo Alegre.

Fica uma breve antevisão da ficção a ser exibida no certame:

  • ARRUGAS, de Ignacio Ferreras

  • MIENTRAS DUERMES, de Jaume Balagueró

  • BLANCANIEVES, de Pablo Berger

Os destaques mais óbvios vão para BLANCANIEVES, candidato espanhol a esta edição do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, e MIENTRAS DUERMES, de Jaume Balagueró - um dos criadores da franquia [Rec], e já um velho conhecido do público português. As animações ARRUGAS, de Ignacio Ferreras, e LAS AVENTURAS DE TADEO JONES, de Enrique Gato, também serão apostas interessantes. As restantes fitas da secção de ficção, exibidas no Dolce Vita, incluem GRUPO 7, TENGO GANAS DE TI, FIN, LA CHISPA DE LA VIDA, TAMBIÉN LA LLUVIA e EL SEXO DE LOS ÁNGELES.

Podem consultar a programação do festival (e mais informações) no site oficial do CineFiesta.

Cahiers du Cinéma escolhe os 10 melhores filmes de 2012

A mais de um mês do final do ano, chega a primeira lista dos melhores filmes lançados durante esse período. Filmes de Leos Carax, David Cronenberg, Abel Ferrara e Francis Ford Coppola, entre outros, figuram nas escolhas da Cahiers du Cinéma, publicação francesa tida por alguns como a derradeira Bíblia sobre Cinema, com especial destaque para a inclusão de duas produções portuguesas na selecção: COSMOPOLIS, de Cronenberg, e TABU, de Miguel Gomes.

Estes são, segundo os colaboradores da ecléctica Cahiers du Cinéma, os dez melhores filmes do ano que agora termina:

  1. HOLY MOTORS, de Leos Carax
  2. COSMOPOLIS, de David Cronenberg
  3. TWIXT, de Francis Ford Coppola
  4. 4:44 LAST DAY ON EARTH, de Abel Ferrara
  5. IN ANOTHER COUNTRY, de Hong Sang-Soo
  6. TAKE SHELTER, de Jeff Nichols
  7. GO GO TALES, de Abel Ferrara
  8. TABU, de Miguel Gomes
  9. FAUST, de Alexadre Sokourov
  10. KEEP THE LIGHTS ON, de Ira Sachs

Trailer de "Admission"

O novo filme de Paul Weitz - realizador de Being Flynn, genialmente traduzido para português como Mais Uma Noite de Merda Nesta Cidade da Treta - já conta com trailer. Admission é protagonizado por Tina Fey e Paul Rudd e tem estreia marcada nos EUA para 8 de Março de 2013.


terça-feira, 20 de novembro de 2012

Trailer de "The Heat"

A estrear no próximo ano, The Heat já conta com trailer. A comédia, realizada por Paul Feig (Bridesmaids), conta com o protagonismo de Sandra Bullock e Melissa McCarthy.


segunda-feira, 19 de novembro de 2012

The Debt (2010)

James Bond habituou-nos - e mal, diga-se de passagem - a espiões galantes e bem vestidos, gente glamorosa de sotaque(s) britânico(s). Já em Tinker Tailor Soldier Spy, de Tomas Alfredson, se apostava em gente comum, e a propósito do recente lançamento de Skyfall o MI6 lembrou, num anúncio, que uma das características de um bom operativo é a capacidade de passar despercebido. Os agentes secretos do anterior THE DEBT são pessoas normais que não destoam da multidão por entre a qual se têm de mover. Israelitas, a sua missão é extrair da Alemanha Oriental um criminoso de guerra nazi que trabalhou como médico em campos de concentração (esboço suavizado de Mengele). Violação da soberania de uma nação que não será propriamente uma aliada, a operação tem de ser conduzida em segredo. Falhada a missão - e isso é algo que se estabelece logo de início, mesmo antes de se conhecerem os pormenores da história -, os três espiões voltam para casa como heróis. A dívida do titulo será, pois, a deles para com Israel e para com a verdade.

Desde logo encontramos em The Debt um rol de actores conhecidos a desempenhar os principais papéis, separados em dois conjuntos, um mais velho (ou, melhor, experiente, que velhos são os trapos) do que o outro, face à necessidade de dividir a acção entre duas épocas relativamente afastadas. Assim, na acção passada em 1965 temos Jessica Chastain, Marton Csokas e Sam Worthington como os agentes israelitas, enquanto Helen Mirren, Tom Wilkinson e Ciarán Hinds (parece talhado para filmes do género, embora amiúde mal-aproveitado) interpretam as respectivas personagens trinta depois; Jesper Christensen faz as vezes de médico nazi. O casting justifica grande parte do filme, escondendo algumas deficiências a nível da acção. Perde-se demasiado tempo em planos e cenas redundantes que poderiam ter sido facilmente simplificadas. John Madden nem sempre sabe utilizar da melhor maneira todos os recursos à sua disposição e perde-se um pouco na própria fita. Encontra o rumo, é certo, mas não consegue dissipar completamente a atrapalhação que ele próprio criou. Funciona como um razoável thriller de intriga ligada à espionagem, mas existem melhores alternativas dentro do género.


Título Original: The Debt (EUA/Hungria/Reino Unido, 2010)
Realizador: John Madden
Argumento: Matthew Vaughn, Jane Goldman, Peter Straughan (baseado no filme Ha-Hov, escrito por Assaf Bernstein e Ido Rosenblum)
Intérpretes: Helen Mirren, Tom Wilkinson, Ciarán Hinds, Jessica Chastain, Marton Csokas, Sam Worthington, Jesper Christensen, Romi Aboulafia
Música: Thomas Newman
Fotografia: Ben Davis
Género: Thriller
Duração: 113 minutos


domingo, 18 de novembro de 2012

Trailer de "The Host"

Com estreia prevista em Portugal para Março de 2013, The Host já conta com trailer. O filme, que conta com a realização de Andrew Niccol (In Time), reúne no elenco nomes como Saoirse Ronan, Diane Kruger e William Hurt.


Sunday Stills #12: "Sinister"



Ethan Hawke em SINISTER, de Scott Derrickson. Um aviso de como o Cinema - e a própria película - pode ser perigoso.

sábado, 17 de novembro de 2012

The Artist (2011)

2011 foi um ano fértil em homenagens ao Cinema e à sua História. Entre títulos como Hugo ou My Week with Marilyn, THE ARTIST foi um dos que mais se destacou, roubando, inclusive, os Oscars de Melhor Filme e Realizador à peça de Scorsese. É, no entanto, curioso como um dos filmes mais falados do ano passado é, essencialmente, mudo.

Aquele romance da Hollywood Clássica entre uma estrela acabada e outra em ascensão acaba por narrar singelamente a crónica que foi a passagem do cinema mudo para o falado. Não será de estranhar, portanto, que se reveja na figura de George Valentin a de Douglas Fairbanks, também ele um ídolo das matinés caído no esquecimento quando as fitas passaram a contar com som. É no seu overacting - perdão, no de Jean Dujardin e Bérénice Bejo - que se faz grande parte deste The Artist; quando não se pode falar (ou, antes, fazer-se ouvir) há que compensar na expressão facial e corporal. Essa necessidade constante do exagero quase faz cair a obra por várias vezes no melodrama, salvando-se apenas através da realização competente de Michel Hazanavicius.

O realizador - conhecido pelas colaborações com Dujardin nas paródias francesas a 007 e aos filmes de espionagem -, de resto, transforma a modesta história num filme razoável, capaz de conquistar o coração a uma fatia grande do público e da crítica. Manipulando uma série de mecanismos típicos do cinema mudo, alguns melhor do que outros - aquele falso ecrã dividido na cena do restaurante consegue ser dos mais interessantes -, Hazanavicius consegue fazer algumas referências inteligentes àquela Era da Sétima Arte.

É engraçado como a primeira palavra ouvida em The Artist é "corta", e a última "acção". A sequência demonstra perfeitamente a possibilidade daquelas quase duas horas de filme se conterem a si mesmas e, sobretudo, na tela. Fica a certeza de que, quando numa sala escura iluminada por um projector, a vida consegue ser mais bonita.


Título Original: The Artist (Bélgica/EUA/França, 2011)
Realizador: Michel Hazanavicius
Argumento: Michel Hazanavicius
Intérpretes: Jean Dujardin, Bérénice Bejo, John Goodman, James Cromwell, Penelope Ann Miller
Música: Ludovic Bource
Fotografia: Guillaume Schiffman
Género: Comédia, Drama, Romance
Duração: 100 minutos



Lawless (2012)

A Lei Seca foi responsável pelo aparecimento de uma nova categoria de heróis românticos no folclore norte-americano. Materialização do "Sonho Americano", a figura do gangster de metralhadora na mão, enriquecido pela crise, rivalizava com a do pioneiro que reclamava a terra aos índios. A Lei Seca terá sido, desse modo, um novo Velho Oeste, não se estranhando, portanto, que se chame a LAWLESS - e ao muito mais poético título português DOS HOMENS SEM LEI - um neo-western. Aliás, e considerando o rótulo, quiçá pretensioso e elitista, mas ainda assim útil, há algo na imagem dos irmãos Bondurant que puxa tanto a Dillinger como aos pistoleiros do faroeste, genericamente representados sob a égide sem nome de Clint Eastwood. É certo que lhes falta o charme e o carisma bruto de ambos os arquétipos, mas compensam na vontade de não se vergarem perante ninguém. No caso dos Bondurant - que não sendo mafiosos (são apenas contrabandistas de álcool), seguem o seu apanágio - a contenda é com a Lei, na figura de um agente especial entre o sádico e o psicótico.

John Hillcoat nunca se esquivou a mostrar violência ao público; será essa a sua principal característica autoral. Em Lawless a agressão toma por vezes contornos exagerados sem que, no entanto, obrigue a audiência a desviar o olhar (como no caso de The Road, onde Viggo Mortensen encontrava caves de gado canibal desmembrado). Os Bondurant - e há-os para todos os gostos, o bêbedo, o cobardolas e o invencível -  evitam, contudo, utilizar a força como recurso. A dinâmica entre os irmãos é espantosa: Forrest e Howard, os mais velhos, quase não falam entre si, comunicando maioritariamente por grunhidos e olhares ressentidos; Jack, o mais novo, começa o filme afastado dos irmãos - é um yes man, privado dos «acontecimentos terríveis» que fizeram dos outros dois aquilo que são - mas acaba convertido num anjo da morte, pronto a precipitar a sua fúria sobre quem matou o seu amigo. Convergem os três para o mesmo ponto, o da violência sem escolha, e nem as mulheres os conseguem salvar - Jessica Chastain para Tom Hardy e Mia Wasikowska para Shia LaBeouf.

Extraordinariamente filmado, com especial mérito para a direcção artística de Gershon Ginsburg - não haverá quem ponha em causa de que se trata de um belo filme de época, detalhadamente recriado -, e de fotografia, Lawless falha, sobretudo, a nível de história. Há qualquer coisa no desenvolvimento que deixa algo a desejar e Hillcoat falha em solidificar o filme. O argumento de Nick Cave, que já havia colaborado com o realizador em Ghosts... of the Civil Dead e The Proposition, constitui, no entanto, um bom esforço, do qual resulta uma boa fita de crime. É engraçado como dois australianos decidiram recriar dois dos géneros mais emblemáticos do Cinema norte-americano, o western e o filme de gangsters, ao jeito bluegrass, ajudado pela banda sonora de Cave e Warren Ellis. A nota com que termina revela, de resto, o espírito do filme: podemos até ser imortais, mas a Morte não leva ninguém com vida.


Título Original: Lawless (EUA, 2012)
Realizador: John Hillcoat
Argumento: Nick Cave (baseado no livro de Matt Bondurant)
Intérpretes: Shia LaBeouf, Tom Hardy, Jason Clarke, Guy Pearce, Jessica Chastain, Mia Wasikowska, Dane DeHaan, Gary Oldman
Música: Nick Cave, Warren Ellis
Fotografia: Benoît Delhomme
Género: Crime, Drama
Duração: 116 minutos


Os cavalos do menino Noé

Reza a história que a personagem do Talhante nasceu na primeira vez que Gaspar Noé pôs os pés em França. Criado na Argentina, o menino visitava o país da mãe, e o pai, por algum motivo que escapa à compreensão (à minha, pelo menos), decidiu dizer-lhe que por aqueles lados se comiam cavalos. Bem, não terá dito exactamente que se tragava o bichedo, mas que se consumia a sua carne. Ora, para o menino Noé aquilo era tudo muito estranho, na terra dele não se comiam cavalos. A cabeça dele pôs-se logo a dar voltas e criou a personagem que o acompanharia em mais filmes até ao momento. Nasceu naquele momento o Talhante sem nome, introspectivo e violento, com queda filosófica para monólogos solipsistas e narrações em voz-off.


A obra de Noé será, de resto, uma ode à agressão - das personagens e dos sentidos - e um produto da progressiva dessensibilização da sociedade em relação à violência. Já em CARNE  (*), a sua primeira aparição, o Talhante (brilhantemente interpretado por Philippe Nahon) surgia como uma espécie de anjo da vingança moralmente ambíguo, atacando quem julgava ter violado a filha autista que também ele desejava. Em SEUL CONTRE TOUS, extensão do filme anterior, voltava a revelar os traços quase niilistas que havia evidenciado na curta-metragem; voltamos a encontrá-lo em IRRÉVERSIBLE, derrotado e colhendo os frutos do que semeou com sangue.

A lição a tirar, se é que chega a haver alguma, é que nunca sabemos quais as consequências do que dizemos aos outros. Não imagino que o pai de Gaspar Noé algum dia pensaria que ao afirmar ao filho que os gauleses comiam cavalos estaria a contribuir para a criação de uma das partes mais importantes da sua obra. A verdade é que através da imaginação - e do kubrickiano 2001: A Space Odyssey, segundo o próprio conta - o menino Noé, agora um homem feito, tornar-se-ia um dos realizadores mais criativos da sua geração, pese embora as temáticas e narrativas controversas que aborda. Tudo graças aos hábitos alimentares de um povo.

António Tavares de Figueiredo

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(*) - Acerca de CARNE e SEUL CONTRE TOUS bastará escrever que são o exemplo perfeito de como condensar e limitar uma história ao essencial sem com isso prejudicar o seu desenvolvimento. O que falta ao primeiro em profundidade é compensado com subtileza, do alto dos seus quarenta minutos. Noé recupera a tradição de que melhor do que mostrar é insinuar e deixar a audiência fazer as contas. Isso, e enojá-la com planos gráficos de matança; o início de Carne não é para estômagos fracos.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Novo trailer de "The Canyons"

A câmara com que Paul Schrader filma não será igual à pena com que escreve. Ainda assim, os filmes por ele dirigidos costumam revelar-se agradáveis surpresas e histórias que valem a pena descobrir. The Canyons é o seu mais recente projecto, e conta com o protagonismo de Lindsay Lohan. Depois de um primeiro trailer oficial, chega-nos agora outro em versão 1950. E não é que a coisa parece engraçada?


The Ward (2010)

Há algo em THE WARD que previne que esta crítica se arraste para lá do estritamente necessário. Colecção de scream queens adolescentes - ou aspirantes à condição -, mostra uma história fraca e pouco ginasticada, reciclada de uma premissa já explorada até à exaustão. As miúdas são colocadas num asilo, na década de 60, onde vão desaparecendo uma por uma. A questão, que podia ficar facilmente resolvida em meia hora (e o espectador agradecia), prolonga-se lenta e previsivelmente. Dez anos depois de Ghosts of Mars, igualmente insípido, John Carpenter volta a demonstrar cansaço - o mesmo que o afastou da direcção para Cinema durante a última década -, preferindo, inclusive, nem acumular as funções de compositor com as de realizador neste filme. Incapaz sequer de esboçar com sucesso um regresso aos mecanismos que lhe deram fama - atmosferas negras, narrativas bem ritmadas e o terror predominantemente psicológico do que se sente mas não se vê - este não pode ser o mesmo Carpenter de Halloween ou de The Thing. Quando algo se apresenta assim, um só parágrafo chega para o desaconselhar.


Título Original: The Ward (EUA, 2010)
Realizador: John Carpenter
Argumento: Michael Rasmussen, Shawn Rasmussen
Intérpretes: Amber Heard, Jared Harris, Mamie Gummer, Danielle Panabaker, Laura-Leigh, Lyndsy Fonseca, Mika Boorem, Sali Sayler, Susanna Burney
Música: Mark Kilian
Fotografia: Yaron Orbach
Género: Terror, Thriller
Duração: 88 minutos


quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Trailer de "Holy Motors"

O novo filme do francês Leos Carax, Holy Motors, tem causado sensação nos festivais por onde tem passado. Alguns apontam-no, inclusive, como um possível candidato à temporada de prémios que se se avizinha. O filme tem estreia marcada em Portugal para 3 de Janeiro de 2013.


quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Looper (2012)

«This time travel crap, just fries your brain like an egg...» 

A presença de Bruce Willis em LOOPER remete-nos quase de imediato para Twelve Monkeys, de Terry Gilliam. Até porque em ambos os filmes a personagem de Willis é enviada ao Passado para poder influenciar o Futuro (ou melhor, o seu presente). Acaba sempre perceber que é a sua presença que precipita os mesmos acontecimentos que tenta evitar e que interromper o ciclo é a única solução. Claro que o próprio Twelve Monkeys já remetia para La jetée, de Chris Marker, bem como Looper aponta em mais umas quantas direcções, procurando inspiração em - e retirando alguns elementos de - obras sobre a temática. Evita, contudo, contribuir para o corolário cinematográfico das viagens no tempo, preferindo focar atenções noutras vertentes da história. Nesse aspecto, pode-se traçar nele a antítese de Inception (no qual Joseph Gordon-Levitt participa), todo ele explicações e exposição.

Joseph Gordon-Levitt (com um nariz postiço que mete confusão) e Bruce Willis interpretam duas versões da mesma personagem separadas por trinta anos. Eles são Joe, um assassino a soldo da máfia local cujos alvos são gente enviada do Futuro. Quando tem de se eliminar a si mesmo hesita, e o seu eu-futuro consegue escapar. Se Joe quiser sobreviver terá de encontrar a sua versão mais velha, num jogo do gato e do rato, antes que os seus patrões o encontrem. É curioso reparar como a personagem de Willis se encontra em desvantagem em relação à de Gordon-Levitt: o Passado pode mutilar o Futuro sem qualquer consequência directa; já o Futuro não pode alterar o Passado sem que sofra também. Looper acaba por ser um filme sobre viagens no tempo que, verdadeiramente, não o é. Sem qualquer pretensão científica, prefere apontar baterias a uma hipotética sociedade distópica, fruto de uma severa crise económica, em que a China se tornou mais agradável de viver do que os EUA, deixando que as personagens se expandam dentro dos limites da narrativa. Da mente de Rian Johnson, cineasta que gosta de brincar com os géneros (já o havia demonstrado nos anteriores Brick e The Brothers Bloom), não saiu nenhum Primer, nem seria essa a sua intenção. O "como" é ignorado a favor do "porquê"; o que importa são as pessoas e os seus motivos.

De destacar também a direcção artística e o design de produção da película, responsáveis por aquele Kansas futurista mais ainda assim realista na sua ruralidade. Já dizia Shawn Levy a propósito do seu Real Steel que em produções situadas num futuro próximo o objectivo passa por captar a evolução tecnológica de forma intuitiva: um telemóvel pode ser esteticamente diferente, mas um diner continua a ser um diner e os carros, no fundo, ainda são carros. É graças aos dois departamentos que não damos por nós a exclamar, quais Dorothy, quais quê, que já não estamos no Kansas. Os actores, bons intérpretes - Pierce Gagnon, o miudinho telequinético, é a grande surpresa -, são auxiliados pela direcção segura e directa de  Rian Johnson, que evita perder tempo com futilidades. Quebra a sua regra, no entanto, num par de ocasiões em que prolonga sequências para lá do necessário, mas quando tudo o resto é tão competente essas eventuais falhas são facilmente perdoáveis.

Looper não é perfeito - entre os seus defeitos contam-se alguns problemas de ritmo e a fotografia que, apesar de agradável, abusa da artificialidade dos flares - mas, pelo menos, não precisa de um manual de instruções. E é refrescante encontrar, nos tempos que correm, uma ficção-científica que, de tão simples, pode ser apreciada pelo que é. A fita parece melhor quando deixa que a acção se desenrole desenfreadamente e coloca de parte alguns dos mecanismos pensados para agradar ao público. Chamaram-lhe «o Matrix desta geração», mas serão mais as diferenças que separam os dois filmes do que as semelhanças que os unem. Além disso, e apesar de derivativo, Looper tem qualidade suficiente para se afirmar por mérito próprio dentro do género.


Título Original: Looper (China/EUA, 2012)
Realizador: Rian Johnson
Argumento: Rian Johnson
Intérpretes: Joseph Gordon-Levitt, Bruce Willis, Emily Blunt, Pierce Gagnon, Jeff Daniels, Noah Segan, Paul Dano, Garret Dillahunt, Piper Perabo, Qing Xu, Tracie Thoms
Música: Nathan Johnson
Fotografia: Steve Yedlin
Género: Acção, Ficção-Científica, Thriller
Duração: 119 minutos


Trailer de "John Dies at the End"

Um ano depois de ter passado pelo Festival de Sundance, John Dies at the End receberá estreia comercial nos EUA no início do próximo ano. O filme conta a história de dois desistentes da Universidade que tentam salvar a Humanidade de uma droga que altera o espaço e o tempo. Pelo título e pela premissa, promete.


terça-feira, 13 de novembro de 2012

Skyfall (2012)

Não será de todo errado escrever que em SKYFALL se ensaia um regresso ao passado. Não que seja particularmente antiquado ou datado, mas o desejo de impor um certo classicismo no filme é evidenciado desde cedo, logo durante o prólogo turco que pisca o olho a From Russia with Love. Chegam os créditos iniciais (tema de Adele, nova coqueluche da pop britânica) e o sentimento permanece. Nota-se a vontade de Sam Mendes de imprimir com a sua câmara - o cano da arma - uma nostalgia em relação aos anteriores capítulos da franquia, fundindo-a com uma multiplicidade de referências a outros filmes do género. O herói arrasado pela vida e a casa de infância que arde (referências claras ao Batman de Nolan), as longas perseguições, os movimentos da câmara, o vilão extravagante e bigger than life - esta bem literal, com a personagem a evitar que a Morte a reclame -, são todos pontos a partir dos quais a película deriva, mas que não deixa que se sobreponham à sua identidade. Mendes, de resto, e sem arriscar, reafirma a sua reputação de talentoso realizador, criando um conjunto de cenas muito inteligentes - como é o caso, por exemplo, da sequência em Xangai, iluminada por neóns que se projectam nas personagens (já dizia Nolan, outra vez ele, que o Cinema convencional possui profundidade suficiente sem ter de recorrer ao 3D) - que se insere num bom blockbuster de acção. A qualidade de Mendes como timoneiro revela-se igualmente nas pessoas por quem se escolheu rodear. Direcção artística, banda sonora e montagem, todas bem acima da média, elevam o filme a nível técnico; mas o maior destaque tem de ir, obrigatoriamente, para a bela fotografia de Roger Deakins, abundante em planos a contraluz e sombras, responsável por grande parte da obscuridade que rodeia Skyfall.


Daniel Craig, na sua terceira aparição como James Bond, combina a boa forma física de George Lazenby e o humor clássico (e algo piroso, diga-se de passagem) de Roger Moore, enveredando por um registo e charme diferentes dos de Pierce Brosnan. Mas nisso já se reparara nos dois filmes anteriores. Do outro lado da barricada, o Oscarizado Javier Bardem veste a pele do antagonista Silva, todo ele maneirismos e carga homoerótica. Ciberterrorista - há algo nele que faz lembrar Julian Assange, e não será necessariamente a cabeleira loira -, recupera a postura excêntrica de alguns dos vilões clássicos da franquia, distanciando-se, em simultâneo, dos da era Craig, mais sóbrios e contidos. Judi Dench, como M, completa a tríade, a "mãe" - é curioso como Silva a trata, inclusive por esse título; Bond fica-se pelo mais formal parente fonético (ma'am) - das forças que se opõe e que lutam por ela. São três interpretações seguras que, num filme negro, roubam espaço às Bond Girls da praxe - resta a dúvida se podemos considerar M uma -, que se veem reduzidas a aparecer por mera necessidade logística. A sedução é outra, entre inimigos.

Mendes situa este Skyfall nessa terra de ninguém, mas cada vez mais ocupada, entre o blockbuster puro e o cinema de autor; há quem lhe chame blockbuster de autor. Rótulos à parte, trilha-se aqui uma estrada agradável - a obra de Mendes é repleta destes caminhos, quer de predição, quer de redenção, que dão prazer percorrer -, com direito a uma road trip de Bond e M, num Aston Martin restaurado, à Escócia que viu nascer para o Cinema o icónico agente secreto britânico. O resultado final não desilude, apesar de caminharmos impiedosamente para um desfecho que desde cedo se faz anunciar. Cinquenta anos e vinte e três filmes depois, Bond continua bem vivo e pronto para as curvas. Afinal, o passatempo dele sempre é a ressurreição.


Título Original: Skyfall (EUA/Reino Unido, 2012)
Realizador: Sam Mendes
Argumento: Neal Purvis, Robert Wade, John Logan (baseado nas personagens de Ian Fleming)
Intérpretes: Daniel Craig, Judi Dench, Javier Bardem, Ralph Fiennes, Naomie Harris, Bérénice Marlohe, Albert Finney, Ben Whishaw, Ola Rapace
Música: Thomas Newman
Fotografia: Roger Deakins
Género: Acção, Aventura, Crime, Thriller
Duração: 143 minutos


segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Immortals (2011)

Uma das culturas mais afectadas pelas ondas de fervor histórico que periodicamente assolam Hollywood é a da Antiga Grécia. Rica em História, lendas e mitologia, fornece material suficiente às fornalhas da indústria, obrigadas pelo lucro a produzir mais em quantidade do que em qualidade. Já se escrevia sobre a discrepância entre potencial e produto final a propósito de Clash Of The Titans (remake do clássico com Laurence Olivier e Maggie Smith), filme de formato e temática semelhantes aos do mais recente IMMORTALS. Pegar em personagens lendárias - sejam elas deuses, semi-deuses ou humanos - e colocá-las num modelo narrativo ao jeito do cinema norte-americano de acção/aventura há muito que não constitui novidade. Desta feita foi a vez de Teseu. Favorecido pelos deuses, o seu objectivo é impedir que o rei Hipérion use o mítico arco de Épiro para libertar os titãs e subjugar a Humanidade.

Se também na premissa se retoma o template utilizado noutras produções, Immortals destaca-se, no entanto, na sua vertente mais visual, com Tarsem Singh a afirmar que pretendia dar à imagem a aura de uma pintura Renascentista. Os constantes jogos de luz e sombra - utilização abundante do chiaroscuro - dão à película uma interessante componente gráfica, apesar de, por vezes, demasiado escura, impossibilitando o acompanhamento da acção. O tratamento da imagem assemelha-se ao de 300, de Zack Snyder, revelando-se, contudo, ligeiramente mais cansativo de assistir. Singh desperdiça parte do elenco (John Hurt e Freida Pinto têm talento para mais, Stephen Dorff continua mediano) e coloca Henry Cavill como um Teseu que nem aquece, nem arrefece, frente-a-frente a um Mickey Rourke cada vez mais habituado a fazer de vilão atormentado pela morte da família.

Num filme sobre mitologia Clássica que figura proeminentemente deuses e titãs Singh toma algumas liberdades curiosas em relação à estória. Algumas, como as de tornar o Minotauro um homem (monstruoso, é verdade, mas mesmo assim apenas um homem) ou de desfigurar e mutilar as hordas de Hipérion, acentuam o carácter derivativo de Immortals. No fundo, acabam por resumir bem o espírito do próprio filme: não sendo particularmente bom - ou sequer razoável -, encaixa-se perfeitamente no modelo que se propôs seguir.


Título Original: Immortals (EUA, 2011)
Realizador: Tarsem Singh
Argumento: Charley Parlapanides, Vlas Parlapanides
Intérpretes: Henry Cavill, Mickey Rourke, Freida Pinto, Stephen Dorff, Luke Evans, John Hurt, Joseph Morgan, Anne Day-Jones, Isabel Lucas
Música: Trevor Morris
Fotografia: Brendan Galvin
Género: Ação, Drama, Fantasia
Duração: 110 minutos



 

Banda Sonora: "Reservoir Dogs"

Little Green Bag, de George Baker Selection.





Música que abre Reservoir Dogs, primeiro filme realizado por Quentin Tarantino, Little Green Bag tornou-se um clássico da cultura pop. O significado ambíguo da letra potencia a formulação e revela que a escolha de a colocar na banda sonora do filme foi tudo menos inocente. Para cantarolar o resto do dia.

domingo, 11 de novembro de 2012

Red Lights (2012)

As expectativas eram elevadas em relação ao próximo passo na carreira de Rodrigo Cortés. Depois do galego ter realizado Buried, obra ultra-minimalista que prendia Ryan Reynolds dentro de um caixão, antecipava-se sobre o que seria o filme seguinte a sair da cabeça do cineasta espanhol. Cortés optou por manter-se dentro do género, apresentando RED LIGHTS. Altera, no entanto, o registo, expandindo a trama e introduzindo elementos do paranormal (ou do pseudo-paranormal, conforme se discute na película). A história segue Tom Buckley (Cillian Murphy) e Margaret Matheson (Sigourney Weaver), dois cientistas que vivem a desmentir falsos fenómenos sobrenaturais. Quando Simon Silver (Robert De Niro), um psíquico  famoso e o único que Matheson não conseguiu desmascarar, reaparece após trinta anos de reclusão, Buckley fica obcecado em provar que se trata apenas de mais uma fraude.

Cortés constrói neste seu Red Lights um curioso exercício de cinema (e) psicológico. Ao  contrário dos outros ocultistas, os poderes de Silver permanecem um mistério durante grande parte do filme. Evita-se afirmar peremptoriamente que o sobrenatural não existe; diz-se apenas que, se existe, não se manifesta como as pessoas são levadas a crer. O próprio realizador declarou que a fita não se trata de um exercício de fé (ou falta dela), e De Niro, depois de conhecer alguns médiuns, chegou a afirmar que eles sabiam coisas sobre si que não tinham qualquer maneira de conhecer. Cada um dos lados suprime as provas potencialmente prejudiciais à sua causa, tornando a conclusão final - e, sobretudo, o modo como é alcançada - algo irónica. Auxiliado por uma direcção de fotografia sóbria mas competente da parte de Xavi Giménez e uma sonoplastia, a espaços, enervante, Red Lights pode muito bem funcionar como a afirmação do cineasta galego nos caminhos do Thriller. Os cépticos poderão não ficar convencidos, mas há aqui talento.


Título Original: Red Lights (Espanha/EUA, 2012)
Realizador: Rodrigo Cortés
Argumento: Rodrigo Cortés
Intérpretes: Cillian Murphy, Robert de Niro, Sigourney Weaver, Elizabeth Olsen, Toby Jones
Música: Victor Reyes
Fotografia: Xavi Giménez
Género: Drama, Mistério, Thriller
Duração: 113 minutos



Sunday Stills #11: "Cosmopolis"



Robert Pattinson e Paul Giamatti em COSMOPOLIS, de David Cronenberg, uma das co-produções nacionais mais sonantes de sempre.

Ward No. 6 (2009)

A linha que separa a loucura da sanidade é tão ténue que amiúde se torna indistinguível e cessa de existir. Aí, o sábio torna-se um pobre de espírito e o perturbado passa a iluminado. Nem sempre é discernível em qual das categorias, já de si pouco estanques, se encaixa alguém extraordinário. O conceito não é novo, nem a abordagem que Aleksandr Gornovsky e Karen Shakhnazarov lhe dedicam, mas WARD NO. 6 acaba por oferecer uma visão diferente sobre a questão. Em jeito de documentário - falso, mas que podia ser mais verdadeiro do que alguns que declaradamente o são, o que nos leva a perguntar onde se devem traçar os limites do género - começa-se por entrevistar meia-dúzia de internados num hospício soviético (a Rússia parece não ter chegado ainda ao local). Falam da sua vida na instituição e do seu antigo director. Proeminente psiquiatra de larga reputação, vê-se preso numa pequena cidade que, segundo ele, é incapaz de apreciar cultura e arte. Criatura de hábitos fixos - não dispensa a sua leitura diária (clássicos da literatura) nem o copo de vodka após o almoço - entra numa espiral descendente rumo à alienação quando conhece um paciente que partilha da sua visão. A figura, que lhe surge algo enquadrada na imagem de profeta, faz dele seu apóstolo e leva-o a abandonar a vida de médico.

Shakhnazarov, um dos mais influentes cineastas russos da sua geração, director-geral da Mosfilm (histórica produtora responsável por obras de gente como Sergei Eisenstein, Andrei Tarkovsky e Akira Kurosawa, entre outros), oscila entre o falso documentário e uma narrativa mais convencional. Tudo muito diegético, excepção feita à sequência da visita do Doutor e do seu vizinho à capital, barulhenta e desorganizada, e pachorrento. A lentidão e passividade da fita imitam as da vida rural e custam a passar. Às tantas, também o público, "preso" à cadeira, restringido àquela sala de cinema que torna real a ficção de Chekov que passa no ecrã, sente a dor do médico. Quando há pouco para fazer os ponteiros do relógio tendem a mover-se mais devagar. Não é o melhor filme de Shakhnazarov (quanto ao outro realizador, que confesso não conhecer, não posso adiantar o mesmo) e pela densidade e rigor pode ser difícil de assistir para quem estiver formatado para um Cinema mais ocidentalizado, mas Ward No. 6 revela-se uma obra competente e sólida, da qual vale a pena recordar um par de cenas potencialmente memoráveis - vem-me à memória, por exemplo, o baile no final do filme. Como na vida, é quando o cansaço se começa a manifestar que se perde a vontade de distinguir entre o real e o imaginado.


Título Original: Palata N°6 (Rússia, 2009)
Realizador: Aleksandr Gornovsky, Karen Shakhnazarov
Argumento: Aleksandr Borodyanskiy, Karen Shakhnazarov (baseado no conto de Anton Chekhov)
Intérpretes: Vladimir Ilin, Aleksey Vertkov, Aleksandr Pankratov-Chyornyy, Evgeniy Stychkin, Viktor Solovyov
Música: Evgeny Kadimsky
Fotografia: Aleksandr Kuznetsov
Género: Documentário, Drama
Duração: 83 minutos


Sinister (2012)

Parece facto assente que o cinema de Terror actual sofre da necessidade de viver dentro de um determinado conjunto de convenções mais ou menos fixas para que seja capaz de agradar a um público cada vez mais jovem e afastado das sementes do género. Haverá sempre, no entanto, quem se mostre capaz de as manipular habilmente, introduzindo elementos de novidade nas suas obras. É o caso de Scott Derrickson em SINISTER, filme que brinca com algumas das noções canónicas do Terror. A mais importante será, porventura, a de que o Mal precisa de um convite para entrar na vida das personagens. Seja por curiosidade, seja por inconsciência (ou uma combinação perigosa das duas), é comum a quase todo o Terror que sejam os sujeitos a abrir portas que mais tarde irão querer fechar, noção, de resto, explorada (e explicada) em The Cabin In the Woods. Outra igualmente relevante é a de que o Mal pertence ao próprio veículo que o difunde. Quanto mais físico e palpável, melhor. Filmes como Videodrome, de David Cronenberg, ou o mais recente V/H/S colocavam o peso sobre as cassetes, objecto agora antiquado e caído em desuso; Sinister coloca-o sobre a própria película. A entidade imprime-se mais no formato e na imagem do que no conceito. Só depois de o verem é que se torna real. A história não é nova - entidade que rouba crianças e mata as suas famílias -, muito menos o seu twist (há quem o julgue obrigatório, mesmo que implique uma certa dose de previsibilidade), mas é na interpretação dessas noções basilares do género que a película de Scott Derrickson conquista pontos à concorrência.

Muito pouco de Sinister é original. Nem o ponto de entrada na intriga, o snuff film - abordado anteriormente por Alejandro Amenábar em Tesis e por Joel Schumacher no inferior 8MM -, o chega a ser. O realizador compensa, contudo, no modo como filma, tudo muito pouco iluminado, com a luz (do projector, das lanternas) a ser completamente engolfada pela escuridão que a rodeia. Mistura-se found footage com cinematografia tradicional, na terceira pessoa, fugindo à moda que se tem vindo a formar numa escolha igualmente interessante. Ethan Hawke cumpre com o que lhe é pedido, interpretando de forma intensa Ellison Oswalt, um escritor que se mudou com a sua família para uma casa que foi palco de um múltiplo homicídio. O resto da família é durante grande parte do filme acessória, com a excepção da filha mais nova do casal no último terço da fita. Sinister vive sobretudo dos momentos que Hawke partilha com o projector, da descoberta daqueles pequenos segmentos de Super-8 depositados numa caixa esquecida no sótão.

O principal defeito do filme, para além da já referida trama fraca e algo previsível, é cair algumas vezes na tentação do jump scare óbvio. Fora isso, proporciona alguns bons momentos de Terror, um par de conceitos devidamente reimaginados e uma série de mecanismos que o impedem de se tornar demasiado maçador. Trata-se de um caso em que o filme é declaradamente melhor do que a história. Um bom filme de Terror assusta, mas deixa o espectador ir descansado para casa; um óptimo filme de Terror fica-lhe na retina já bem depois de ter terminado.


Título Original: Sinister (EUA, 2012)
Realizador: Scott Derrickson
Argumento: C. Robert Cargill, Scott Derrickson
Intérpretes: Ethan Hawke, Juliet Rylance, James Ransone, Clare Foley, Michael Hall D'Addario, Fred Dalton Thompson, Victoria Leigh
Música: Christopher Young
Fotografia: Chris Norr
Género: Mistério, Terror
Duração: 110 minutos



sábado, 10 de novembro de 2012

Trailer de "World War Z"

A complicada adaptação cinematográfica do livro World War Z já tem trailer. A fita, homónima, conta com realização de Marc Forster (Quantum of Solace) e será protagonizado por Brad Pitt e Mireille Enos. A estreia está prevista para o Verão do próximo ano.


Trailer de "Warm Bodies"

O novo filme de Jonathan Levine (realizador de 50/50), Warm Bodies, corre o sério risco de se tornar um dos novos cult classics junto da malta adolescente. Para além de contar no seu elenco com nomes como Nicholas Hoult, Teresa Palmer e John Malkovich, alinha-se no cruzamento entre a comédia romântica e o filme de zombies. Rom-com-zom. A fita tem estreia marcada nos EUA para o início de 2013.


sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Intruders (2011)

Estamos numa era onde já há pouco para explorar no terror, pelo menos algo que realmente choque o público, e numa tentativa de adicionar um elemento mais intelectual e surpreendente, somos bombardeados constantemente com filmes que, em vez de nos deixarem perplexos, nos fazem adormecer. Intruders não foge a essa regra e demonstra ser mais um fraco exercício de cinema, tentando apoiar-se num elenco reconhecido, planos bonitos e um twist que pouco ou nada impressiona.

Em Madrid, Juan (Izán Corchero) e a mãe, Luisa (Pilár López de Ayala), são atormentados durante a noite por uma entidade misteriosa que não possui cara, Hollowface, cujo o objectivo é roubar a cara de Juan. Em Londres, Mia (Ella Purnell) e o pai, John Farrow (Clive Owen), são perseguidos pela mesma entidade, no entanto não há maneira de identificá-lo e nem os sistemas de segurança o impedem de regressar e aterrorizar a família.

A falta de coerência é um dos grandes problemas deste filme que tenta tomar um aspecto mais psicológico do que o típico filme de terror. O enredo confuso só vem realçar as actuações, que não passam de medíocres e irrelevantes, deitando completamente a perder as poucas tentativas de obter uma realização mais surpreendente. O filme conta duas histórias em simultâneo e que, superficialmente, pouco se identificam uma com a outra, suponho que tal tenha sido para haver um certo impacto na altura do climax, que só bocejos traz, mas em vez disso tornou-se tudo extremamente previsível e falhou em causar o espanto pretendido.

Numa era em que já é normal haver uma abundância de maus filmes, este é só mais um a adicionar a uma já grande lista. Dificilmente será relembrado e apreciado em circunstâncias normais, já são tantos os que atingem este nível de indiferença, até o próprio esquecimento já se torna num acto involuntário e instintivo. Não há qualquer tipo de razão para ver este, se alguma vez se depararem com ele apenas empurrem para o lado e procurem noutro sitio. 


Título Original: Intruders (EUA/Reino Unido/Espanha, 2011)
Realizador: Juan Carlos Fresnadillo
Argumento: Nicolás Casariego; Jaime Marques
Intérpretes: Clive Owen; Carice Van Houten; Daniel Bruhl; Pilar López de Ayala; Ella Purnell; Izán Corchero
Música: Roque Baños
Fotografia: Enrique Chediak
Género: Terror; Thriller
Duração: 100 minutos



quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Argo (2012)

Quando a realidade é mais estranha do que a ficção.

ARGO abre, quase a frio, com algumas das imagens mais impressionantes produzidas pelo cinema norte-americano recente, remetendo logo, mesmo que vagamente, para Munich, de Steven Spielberg. Aquele misto de material de arquivo e cenas recriadas marca desde logo o tom para o filme, sendo raramente igualado em tensão e intensidade - conceitos que, de resto, torna bem palpáveis - durante o resto da sua duração. A crise de reféns no Irão que se seguiu à Revolução de 1979 marcou a transição entre as décadas de 70 e de 80, manchando as relações entre os dois principais países envolvidos. A falta de vontade, ou receio, da Administração Carter em se envolver levou a um impasse. Dos sessente e poucos norte-americanos que trabalhavam na embaixada em Teerão, seis conseguiram escapar antes que fosse consumada a invasão do espaço pela multidão iraniana, refugiando-se na residência do Embaixador Canadiano. A sua extracção do país tinha de ser realizada em segredo, sob pena de serem executados, e ficou a cargo de Tony Mendez, perito da CIA em tirar gente de sítios em convulsão.


A solução passa por fazer passar os seis americanos por uma equipa de rodagem canadiana a fazer scouting de locais no Médio Oriente. O insólito da situação é reforçado pelas restantes alternativas à disposição - dar-lhes bicicletas e mapas do país e deixá-los pedalar até à fronteira, mascará-los de professores ou inspectores de colheitas (quando é Inverno e já não as há) - e a impossibilidade de as pôr em prática. Por uma vez Hollywood, a indústria que vive da fraude e da mentira consciente, afigura-se como a opção mais plausível. Monta-se então um falso filme - rip-off das space operas, ficção-científica popular à data - e uma falsa produtora com a ajuda de um maquilhador e de um velho produtor e vende-se a coisa à imprensa como se fosse verdade. Argo, o filme, e Argo, o falso filme dentro do filme, confundem-se pois, numa sátira à indústria de Cinema norte-americana, fábrica (e destruidora) de sonhos, e agora esperança de seis americanos presos em Teerão. O significado da palavra acaba por não interessar para além de título de algo que não existe; Alan Arkin chega a cunhar a frase mais memorável do filme («Argo fuck yourself!») em resposta a um jornalista que lhe pergunta exactamente sobre isso.

Ben Affleck, cada vez mais longe dos tempos em que era motivo de chacota como actor, assina um bom filme, suportado pelo argumento sólido de Chris Terrio, ao qual junta uma interpretação discreta mas competente. O objectivo passa, essencialmente, por não ofuscar, e cada membro do elenco, consciente da sua parte a desempenhar na fita, cumpre com a regra; não que não haja espaço para brilharem, porque o há e é utilizado, apenas não cedem à tentação de se sobrepor à história. Argo resulta muito bem como filme de época - a direcção artística e o figurino são fantásticos, a banda sonora é das mais interessantes nos filmes que lidam com aquela década - e thriller de espionagem. É por o enredo, baseado em factos verídicos (frase que envenena o espectador não raras vezes), ser tão pouco plausível que se torna engraçado; Hollywood como ratline financiada pela CIA não deixa de ter o seu quê de piada. Ironicamente, é quando a estória parece mais real (a fuga a complicar-se já no aeroporto) que se tomam as liberdades artísticas. Sacrifica-se, pois, a verdade pela ficção, em nome de um clímax mais satisfatório. Também aí Hollywood tece a sua teia.

Eivado de uma retórica profundamente pró-Americana, numa cultura que gosta de ser frequentemente recordada dos seus melhores momentos, há um défice na atenção dedicada ao envolvimento canadiano na operação. Affleck redimiu-se após Toronto - alguém o deve ter avisado da falha - com as legendas finais e reconheceu que os vizinhos foram essenciais para o sucesso da missão. As personagens iranianas surgem igualmente maculadas pelo sentimento pró-Americano, representadas na sua maioria pela figura do guarda nacional, homem rude de barba muito escura com pouco sentido de humanidade. A aura patriótica, aliada a um certo calculismo Académico, deve granjear a Argo algumas nomeações importantes na temporada de prémios que se avizinha. A lição a tirar, se é que chega a haver alguma, é que o fanatismo só gera mais fanatismo. Fora isso, é óptimo entretenimento, consciente da sua condição como tal.


Título Original: Argo (EUA, 2012)
Realizador: Ben Affleck
Argumento: Chris Terrio (baseado no artigo de Joshuah Bearman)
Intérpretes: Ben Affleck, Bryan Cranston, John Goodman, Alan Arkin, Victor Garber, Clea DuVall, Scoot McNairy, Rory Cochrane, Kerry Bishé, Tate Donovan
Música: Alexandre Desplat
Fotografia: Rodrigo Prieto
Género: Drama, Histórico, Thriller
Duração: 120 minutos